Sobre a mentira, a ilusão e seus efeitos

Nestes tempos de fake news e de CPI da Covid, com depoimentos questionáveis quanto à sua veracidade, somos convidados a refletir sobre a mentira. Não é meu objetivo discuti-la sob a ótica da moral, da política ou da legalidade. Interessa-me pensá-la sob o ângulo do desenvolvimento emocional. Mais especificamente, inseri-la no contexto das relações intersubjetivas.

Somos seres que mentem. As crianças logo descobrem as mentiras dos adultos: quando ouvem que uma injeção não vai doer, que um remédio amargo é gostoso. É uma forma de convencer a criança a fazer algo que lhe trará benefício, mas é uma mentira.  Elas também aprendem rapidamente a mentir. Sempre acho graça de uma antiga história familiar sobre uma criança escondida atrás da porta fumando um cigarro (sim, um cigarro!) que, quando inquerida sobre o que fazia, disse que estava comendo pernilongos. Ela sabia que estava fazendo algo que não podia, então mentiu para não enfrentar as consequências.

Muitas mentiras são usadas para que não sejam enfrentadas as consequências reais ou imaginadas. São aquelas usadas para proteger a nós mesmos ou àquilo a que damos valor, de sofrimento. Proteger uma reputação, um ideal, um grupo, um familiar, um amigo, uma relação, uma negociação.

Há também mentiras que são usadas para atacar, para agredir, para destruir, baseadas na inveja, no ódio, no preconceito, na intolerância. São como armas para atingir reputações, criar discórdia, atacar àqueles que são percebidos como inimigos.

A mentira nem sempre é o oposto da verdade. Ela pode se manifestar mesclada com ela; como nos mostra um conto judaico reproduzido por Barbiere (2019):

A Verdade e a Mentira se encontram um dia.
A Mentira diz à Verdade: “Hoje é um dia maravilhoso!” A Verdade olha para os céus e suspira, pois o dia era realmente lindo.
Elas passam muito tempo juntas, chegando finalmente ao lado de um poço. A Mentira diz à Verdade: “A água está muito boa, vamos tomar um banho juntas!” A Verdade, mais uma vez desconfiada, testa a água e descobre que realmente está muito gostosa. Então, elas se despem e começam a tomar banho.
De repente, a Mentira sai da água, veste as roupas da Verdade e foge.
A Verdade, furiosa, sai do poço e corre para encontrar a Mentira e pegar suas roupas de volta.
O mundo, vendo a Verdade nua, desvia o olhar, com desprezo e raiva.
A pobre Verdade volta ao poço e desaparece para sempre, escondendo nele sua vergonha. Desde então, a Mentira viaja ao redor do mundo, vestida como a Verdade, satisfazendo as necessidades da sociedade, porque, em todo caso, o Mundo não nutre nenhum desejo de encontrar a Verdade nua.

A pessoa que mente muitas vezes o faz para alguém, e pode ser para alguém que também mente a si mesmo, por preferir a ilusão à verdade. São os pactos que são realizados de forma inconsciente entre os casais para manter a modalidade de relação; nas famílias, para ocultar fatos vergonhosos ou traumáticos; nas empresas, para garantir sua estabilidade; nas sociedades, para manter o status quo. São omissões, segredos, mitos.

O desprezo e a raiva à verdade emergem com força quando a desilusão ameaça o equilíbrio das relações. Se somos seres que mentem, quando as máscaras caem ficamos todos muito parecidos. Temos medo de ver refletido no espelho nossa cabeça de Medusa.

Por outro lado, são muitos os danos creditados às inverdades e omissões: os segredos familiares levam muitos membros à psicoterapia, e a desilusão pode ser semelhante a um luto que, quando não é suportado, traz a depressão em seu bojo; casais se mantêm em relações abusivas; empresas se tornam corruptas; as sociedades são levadas à opções por projetos políticos desastrosos.

Talvez o maior dano seja aquele provocado por quem se espera proteção. Após uma experiência potencialmente traumatizante, o suposto protetor desmente o fato, ou desqualifica o sofrimento. Não, não aconteceu a sedução, o estupro, o assédio, a violência física, o abuso de autoridade, a postura racista, o genocídio. Na condição de extrema vulnerabilidade, as pessoas têm que escolher se acreditam em suas próprias percepções, ameaçando o vínculo de proteção, ou se põem em dúvida suas experiências e criam uma cripta dentro de si mesmos, de forma a manter o vínculo. Pior ainda quando são ameaçadas se insistirem em manter a sua versão dos fatos.

Bion, psicanalista britânico, dizia que a verdade é o alimento para nosso psiquismo. Temos aversão à verdade. Temos medo dela, e em muitos casos não somos capazes de suportá-la. Por isso, nos alerta: a verdade, sem compaixão, é crueldade.

Mas, será que podemos viver sem mentiras, sem ilusões?

Não posso deixar de comentar que há um tanto de mentira nas ilusões que nos acalantam, no brincar da criança, na literatura, cinema, teatro, nas artes em geral, e, segundo Freud, nas religiões.

Quando nós sabemos que é “de mentirinha”, fazemos uma concessão, a mesma que fazemos com nossos devaneios. Há uma importante função de nos auxiliar a representar a realidade e aumentar a nossa capacidade de lidar com ela. É o que nos permite, por aproximação, dizer o indizível, representar o irrepresentável.

Fico um pouco desconcertada ao me dar conta de que o que expus neste artigo se mostrou como pouco orientador e pouco preciso. Intuímos que há diferenças na intencionalidade daquele que mente. Um psicopata que mente, sem nenhuma consideração pelos outros, não é como uma mãe que diz ao filho pequeno que a dor vai passar com o seu beijo. A intenção não é a mesma, mas ambos mentem, favorecem a ilusão.

A mentira também poderia ser avaliada pelo dano que causa: o beijo da mãe pode ter efeito placebo e, por sugestão, reduzir a dor. A criança terá, quando for capaz disso, e ajudada por sua mãe, que ir se desiludindo com a imagem idealizada que fez de sua mãe, e reconhecer seus limites.

A mentira diante da CPI pode ser punida com a perda da liberdade; ela provoca um dano social por haver um contrato social que assim o define. A mentira sobre comer pernilongo, não. Mas isso não é uma regra. Em algumas famílias, a criança poderia ser punida por ter quebrado uma regra de relação importante.

Assim, para compreendermos a mentira, a ilusão e seus efeitos, devemos nos adentrar em um campo complexo de desenvolvimento e maturidade emocional, de tolerância à dor psíquica, de pactos intersubjetivos e sociais, de desenvolvimento moral, de criação da cultura, de regras, de tabus e de leis. Espero não tê-los iludido com minha proposição de me dedicar a este tema, confessando que foi apenas uma aproximação.

Prof.ª Dr.ª Claudia Maria Sodré Vieira

Psicóloga e Psicanalista

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